Resenha do Teólogo

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O Grão de Mostarda e o Fermento

Se você visse Pedro, João, Tiago, André e mais alguns pescadores galileus subindo um morro fora de Jerusalém numa manhã qualquer do ano 30, você não apostaria um real naquele grupo. Doze homens analfabetos, um qu...

Por Resenha do Teólogo · 24 de maio de 2026

Capa: O Grão de Mostarda e o Fermento

Leitura principal: Mateus 13.31-33 (NVT).

Se você visse Pedro, João, Tiago, André e mais alguns pescadores galileus subindo um morro fora de Jerusalém numa manhã qualquer do ano 30, você não apostaria um real naquele grupo. Doze homens analfabetos, um que tinha traído o mestre e se enforcado depois, um que tinha negado o mestre três vezes na pior noite da vida dele, e o resto fugindo de medo. O mestre deles tinha sido executado num poste de madeira numa colina. Não tinham dinheiro, não tinham instituição, não tinham nome, não tinham exército. Tinham um Espírito recebido e uma história estranha sobre um homem que tinha ressuscitado de fato. Se você precisasse apostar no movimento religioso do século, não apostaria naqueles. Apostaria em Roma, com seus templos, sua estrutura, suas legiões. Apostaria nos fariseus, com sua disciplina e seu peso intelectual. Apostaria nos saduceus, com seu controle sobre o templo.

Trezentos anos depois, o império inteiro de Roma se ajoelhou diante daquele evangelho começado por aqueles pescadores. Dois mil anos depois, a fé deles é a maior religião do planeta. As ruínas dos templos romanos viraram pedra para construir capelas. O Sinédrio sumiu da história. As colunas dos saduceus desabaram. E o que restou? O nome de Jesus, conhecido em cada canto do mundo, falado em cada idioma da terra, levado pelos descendentes espirituais daqueles galileus.

Isso é exatamente o que as duas parábolas que vamos estudar hoje anunciam. O Reino dos céus começa pequeno e termina enorme. O Reino age por fora e por dentro. Por fora, cresce como uma semente que vira árvore. Por dentro, age como fermento que transforma a massa toda. As duas imagens, juntas, dizem que ninguém deve julgar o Reino pelo tamanho aparente nem pela velocidade aparente. O método de Deus parece pequeno e parece lento. Mas chega a todo lugar.

O contexto bíblico

Antes de entrar no texto, vale colocar essa parábola dentro do mundo onde ela foi dita. A Galileia rural conhecia mostarda. A mostarda preta crescia espontânea no campo, em tufos de plantas amareladas no verão, com pequenas vagens cheias de sementes minúsculas. A semente da mostarda era, no imaginário judeu, sinônimo de coisa pequena. Quando os rabinos queriam dizer "uma quantidade ínfima", diziam "do tamanho de um grão de mostarda". Quando Jesus falou de fé do tamanho de um grão de mostarda, mais à frente, em Mateus 17, estava usando esse mesmo proverbial.

A mostarda dessa região não vira árvore literal, mas pode crescer dois ou três metros, virando arbusto alto onde pássaros realmente se aninham. O agricultor galileu sabia disso. Plantava aquele negócio mínimo no canto do campo e voltava meses depois para ver uma planta tão grande que dava sombra. A imagem que Jesus usa não era exagero poético. Era cena que cada um já tinha visto. Por isso a parábola entra rápido. Cada ouvinte na praia, ao ouvir "grão de mostarda", já tinha a planta inteira na cabeça.

O contexto histórico também ajuda a entender o tom dessa parábola. O movimento de Jesus era, naquele momento, uma coisa pequena. Doze homens andando pela Galileia. Algumas centenas de seguidores. Sem instituição, sem peso político, sem reconhecimento religioso oficial. Para quem comparasse aquele grupo com o esplendor do Templo em Jerusalém, com a máquina romana, com a influência farisaica nas sinagogas, parecia ridículo. Como aquilo ia mudar alguma coisa? Como aquilo ia ser o Reino prometido pelos profetas? Jesus está respondendo exatamente essa pergunta. O método de Deus é a semente, não o trator. Não vai parecer impressionante no começo. Mas vai chegar onde tem que chegar.

A cena cultural do fermento é outra coisa que precisa ser entendida. No mundo antigo, o fermento não era um envelopinho que se comprava no mercado. Era uma porção de massa azedada guardada de uma fornada para a próxima. A dona da casa pegava aquele pedacinho, escondia dentro da nova massa, e esperava. A palavra que Jesus usa para o que a mulher faz com o fermento é literalmente "esconder". Ela esconde o fermento na farinha. Em horas, a massa toda muda. A textura muda. O cheiro muda. O comportamento da massa muda. Sem que ninguém tenha mexido na parte de fora, a massa toda foi tomada de dentro para fora pelo fermento.

A medida que Jesus menciona é grande. Três medidas de farinha eram aproximadamente trinta e seis quilos. Quem já mexeu com massa de pão sabe que isso é coisa para fazer pão para uma multidão. Não é fornada de pão de cada dia. É fornada de festa, de banquete. Jesus está dizendo que o pedacinho minúsculo de fermento, escondido dentro de uma massa para festa, chega a tudo. Nenhuma porção da massa fica sem ser tocada. O fermento se faz onipresente.

A imagem do fermento na Bíblia, antes de Jesus, era quase sempre negativa. Na Páscoa, Israel comia pão sem fermento para lembrar a saída apressada do Egito. Em outras passagens, fermento simbolizava pecado escondido, hipocrisia, falsa doutrina. Quando o próprio Jesus, em Mateus 16, fala do "fermento dos fariseus", está falando da hipocrisia que se espalha em silêncio. Por isso é surpreendente que aqui, no capítulo 13, ele use o fermento como imagem do Reino. É uma quebra de expectativa proposital. Jesus está dizendo: o Reino age por dentro, em silêncio, como fermento. Penetra de um jeito que ninguém vê. Toma a massa toda antes que alguém perceba.

A imagem da árvore com aves do céu também tem raízes profundas no Antigo Testamento. Em Daniel capítulo 4, o rei Nabucodonosor teve um sonho com uma árvore enorme que dava sombra a toda a terra e em cujos ramos as aves do céu se aninhavam. Essa árvore representava o reino dele. Em Ezequiel capítulo 17, Deus disse que ia plantar um pequeno ramo no alto do monte de Israel e que ele iria crescer até virar cedro magnífico onde "habitarão aves de toda espécie". A imagem de reino-árvore-com-aves era código bíblico antigo para "reino que abriga nações". Quando Jesus diz que a mostarda cresce e as aves do céu se aninham nela, ele está dizendo que o Reino dos céus vai abrigar nações. Não só Israel. Os gentios também. As aves de toda espécie.

Esse é um anúncio enorme escondido numa parábola curta. Aquela multidão galileia estava ouvindo, embora poucos percebessem, que o Reino que estava começando ali, debaixo de um céu de uma vila qualquer, iria um dia abrigar chineses, persas, romanos, africanos, brasileiros, americanos, todos. A planta minúscula iria virar árvore intercontinental. E essa promessa, dois mil anos depois, é fato verificado em cada cidade do globo.

Para fechar o pano de fundo, é importante lembrar o lugar dessas duas parábolas em Mateus 13. Esse capítulo é um bloco de sete parábolas seguidas. A primeira, do semeador, falou dos quatro solos. A segunda, do joio e do trigo, falou da convivência entre fiéis e falsos até a ceifa. A terceira e a quarta, que estamos estudando agora, falam do crescimento do Reino. Em seguida vêm o tesouro, a pérola e a rede. Cada uma toca um lado diferente. As duas parábolas de hoje formam um par. Uma fala de crescimento visível, externo, espalhado. A outra fala de crescimento invisível, interno, penetrante. Juntas, dizem que o Reino chega em duas dimensões. Por fora, parece pouco e fica grande. Por dentro, parece ausente e está tomando tudo.

Vamos ao texto.

Mateus 13.31-32 (NVT)

Outra parábola lhes propôs, dizendo: O Reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando dele, semeou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes; mas, depois de ter crescido, é a maior das hortaliças e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu e se aninham nos seus ramos.

Repare três movimentos nessa parábola curtíssima. Primeiro, alguém pega o grão. Segundo, alguém semeia no campo. Terceiro, o grão cresce sozinho e vira árvore. O agente humano só aparece nos dois primeiros passos. Depois, o crescimento é da própria semente, segundo a vida que tem dentro dela. Isso é importante. O Reino, depois de plantado, não depende do esforço do plantador para crescer. Tem vida própria. Pedro plantou em Jerusalém. Paulo plantou em Antioquia, Éfeso, Roma. Outros plantaram em outros lugares. Cada um deles morreu. A árvore continuou crescendo sem eles. Porque a vida não estava no plantador, estava na semente.

A frase "a menor de todas as sementes" não é exagero. Para o ouvinte galileu, era o jeito comum de falar. A semente de mostarda é minúscula. Cabem dezenas num dedo. E aquilo vira a maior das hortaliças. A diferença entre o que se enterra e o que se vê depois é imensa. Essa diferença é uma das marcas registradas da forma como Deus trabalha. Ele começa com pouco. Começa com uma virgem em Nazaré. Começa com um bebê em manjedoura. Começa com uma cruz fora de Jerusalém. Começa com doze homens medrosos numa sala fechada. Começa pequeno. Mas o que começa pequeno em Deus não termina pequeno.

Imagine uma cena bem brasileira. Um pastor velho, em uma cidadezinha do interior, começou uma igreja há trinta anos com a esposa e os três filhos. A primeira reunião foi na sala da casa dele, com cinco pessoas. A segunda, com sete. A terceira, com quatro, porque dois desistiram. Por meses pareceu que aquilo não ia dar em nada. Por anos foi pequeno. Aos poucos foi crescendo. Hoje, naquela cidade, existe uma igreja sólida que sustenta missionários em outros países, que recebe gente nova todo mês, que tem filhos do pastor pregando o evangelho em três continentes. Aquela primeira reunião na sala parecia nada. Era grão de mostarda. Quem viu de fora não apostaria nem dois reais. Mas o Reino estava ali. E o Reino é fiel a quem o planta, mesmo quando o terreno parece infértil e o resultado parece distante.

A imagem das aves vindo se aninhar nos ramos é especialmente bonita. Não diz que as aves cantam. Não diz que as aves só passam por cima. Diz que se aninham. Quer dizer, fazem ninho. Trazem filhotes. Vivem nos ramos. O Reino, quando cresce, não vira espetáculo distante. Vira lar. Gente perdida encontra abrigo nos ramos da igreja de Cristo. Gente sem família encontra família. Gente sem casa encontra casa. Gente sem identidade encontra identidade. A árvore do Reino é casa para quem não tinha onde se aninhar.

Mateus 13.33 (NVT)

Outra parábola lhes disse: O Reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher, tomando-o, escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficou levedado.

Agora muda a imagem. A parábola anterior era de fora para fora. Plantou no campo, cresceu na altura, virou árvore. Essa daqui é de dentro para dentro. A mulher esconde o fermento na massa. Não bate, não amassa, não martela. Esconde. Coloca o fermento ali e deixa. O fermento faz o resto. E o resto é tudo. "Até que tudo ficou levedado." Tudo. Não uma parte. Não a metade. Tudo. Nenhum pedacinho da massa de trinta e seis quilos escapa do alcance do fermento.

Essa parábola fala da maneira como o Reino penetra. Penetra em silêncio. Penetra por dentro. Penetra em quem nem percebe que está sendo penetrado. Pensa numa família onde uma única pessoa se converte. No começo, parece pouco. Os outros podem até zombar. Mas aquela pessoa começa a orar pela família em silêncio. Começa a tratar a esposa de um jeito diferente. Começa a perdoar o irmão que a magoava. Começa a cumprir promessas que antes quebrava. Em dois anos, o tio percebe que tem algo diferente. Em cinco anos, a sobrinha pergunta o porquê. Em dez, três pessoas daquela família vieram a Cristo. A massa foi sendo levedada. Não com palestra, não com pregação invasiva. Com vida fermentada por dentro.

A figura da mulher no fermento merece atenção. No mundo daquele tempo, a mulher comum fazia pão em casa. Era trabalho dela. Não era papel glamoroso, não tinha holofote, não rendia fama. Era parte invisível da vida diária. Jesus escolhe a figura da mulher fazendo pão para falar do Reino. Quer dizer, o Reino chega pelas mãos invisíveis. Pelas mãos da mãe que ora pelos filhos antes de dormir. Pelas mãos do pai que segura uma raiva no trabalho e perdoa em silêncio. Pelas mãos da empregada que serve com fidelidade na casa de um patrão difícil. O Reino não cresce só por sermão domingo de manhã. Cresce nas cozinhas, nas portarias, nos consultórios, nos ônibus. Onde quer que um filho de Deus esconda o fermento da vida nova dentro da massa do mundo.

Essas duas parábolas juntas têm um efeito de consolo enorme para quem está num momento difícil. Você está orando pelo seu marido há quinze anos e nada parece mudar? A mostarda também demorou. Você está investindo na conversão de uma cidade inteira como missionário e ninguém quer ouvir? O fermento age devagar. Você plantou uma igreja num bairro de gente desinteressada e o crescimento é lento? Não compare com o trator de outras realidades. Compare com a semente. A semente parece nada por meses. Depois vira árvore. O fermento parece nada por horas. Depois leveda a massa toda. O método de Deus está funcionando mesmo quando seus olhos não conseguem medir.

Tem outra coisa que essas parábolas fazem dentro de quem lê. Elas curam o complexo de inferioridade da igreja em relação ao mundo. Vivemos um tempo em que parece que o mundo é grande e a igreja é pequena. Parece que o mundo dita as regras, a moda, a moral, a cultura, a política. Parece que a fé cristã está encolhendo. Em alguns lugares, está mesmo. Em outros, não, está crescendo num ritmo que assusta quem mede com calma. Mas mesmo onde está encolhendo numericamente, o Reino continua sendo fermento. Continua agindo dentro de pessoas, dentro de famílias, dentro de comunidades. O que parece encolhimento pode ser uma fase do crescimento que ainda não revelou seu fruto. Não desanime. O Reino não funciona com o cronômetro do impaciente.

Existe também um aviso embutido. A mostarda cresce, mas atrai aves. As aves, na primeira parábola desse mesmo capítulo, foram o símbolo do maligno que arrebata a semente. Aqui, na do grão de mostarda, as aves se aninham nos ramos. Alguns comentaristas sérios entendem isso como reconhecimento de que, à medida que o Reino cresce externamente, atrai gente de toda espécie, incluindo gente que vem com motivações erradas. Isso pode parecer cínico, mas é realista. Quanto maior a igreja institucional, mais infiltrações ela atrai. Não é motivo para frustração. É motivo para vigilância. O crescimento numérico precisa ser acompanhado de discernimento espiritual.

Da mesma forma, o fermento, em outras passagens, é símbolo de algo que precisa ser tirado. Aqui é símbolo do Reino, mas em Mateus 16 Jesus alerta contra "o fermento dos fariseus". Quer dizer, há fermento bom e há fermento mau. Ambos agem do mesmo jeito, por dentro, em silêncio, espalhando. Se o seu coração está sendo levedado pela palavra do Reino, ótimo. Se está sendo levedado por outra coisa, fofoca, amargura, sedução do dinheiro, vaidade religiosa, atenção, porque essa coisa também leveda tudo. Não tem fermento neutro. Ou um, ou outro, está tomando você de dentro para fora.

Como aplicar isso na sua vida

Eu queria que você lesse essas duas parábolas e respirasse fundo. Se você anda olhando para a sua vida, para a sua família, para a sua igreja, para o seu trabalho, e tem a sensação de que tudo é pouco, de que nada cresce, de que ninguém vê o que você está fazendo, ouça o que essas duas parábolas dizem. Deus trabalha com pouco. Deus esconde fermento. Deus deixa enterrada uma sementinha que parece morta. E no tempo dele, sem espetáculo, sem holofote, sem que ninguém perceba o quando exato, a árvore aparece e a massa leveda. Você não está jogando a vida fora. Você está plantando mostarda. Você está escondendo fermento. Continua. O resultado já está vindo. Só não chegou ainda à camada dos olhos.

Conclusão

As parábolas de Jesus não foram contadas para serem admiradas, mas para serem ouvidas e obedecidas. Esse estudo termina aqui, mas o trabalho do texto na sua vida começa agora. Que o Senhor use estas linhas para formar em você um pensamento mais cristão, mais bíblico e mais maduro, e que a semente lançada hoje encontre, em você, terra boa.