O Dízimo é Obrigatório no Novo Testamento?
Pergunta polêmica. Se cristão tem que pagar dízimo. Algumas igrejas pregam dízimo como lei eterna, com maldição pra quem não dá. Outras dizem que dízimo é coisa do Antigo Testamento, abolido na Nova Aliança.
Pergunta polêmica. Se cristão tem que pagar dízimo. Algumas igrejas pregam dízimo como lei eterna, com maldição pra quem não dá. Outras dizem que dízimo é coisa do Antigo Testamento, abolido na Nova Aliança. Hoje a gente vai abrir o que a Bíblia realmente ensina sobre dízimo, ofertas e mordomia cristã. Sem manipulação. Com texto.
Eu vou te mostrar o que era o dízimo no Antigo Testamento, o que o Novo Testamento ensina sobre contribuição cristã, por que a lei do dízimo não obriga o cristão diretamente, e por que a generosidade neotestamentária pode ir muito além de dez por cento. Até o fim, o leitor ter clareza sobre o que dar, com que atitude, e como exercer mordomia bíblica do dinheiro.
Os dois erros sobre o dízimo
Tem dois erros graves circulando hoje. Primeiro: pregadores que ameaçam quem não dá dízimo, citando Malaquias 3, fora de contexto, fazendo membros viverem com medo. Segundo: gente que abandona qualquer disciplina financeira em nome da liberdade, e vive avaro, sem contribuir com a obra do Senhor. A resposta cristã madura está no meio. Não dízimo como lei. Mas generosidade alegre, intencional, planejada, normalmente começando em torno de dez por cento e crescendo daí. Não menos. Nunca por medo. Sempre por amor. Vamos abrir os textos.
2 Coríntios 9.6 a 8 (NVT)
Lembrem-se: aquele que planta pouco colhe pouco, e aquele que planta muito colhe muito. Cada um deve dar conforme tiver decidido em seu coração, sem tristeza, sem coação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus pode dar a vocês todas as suas bênçãos em abundância, para que sempre tenham tudo de que precisarem e ainda possam fazer o bem em abundância.
Aqui está a regra neotestamentária da contribuição cristã. Cada um decide no coração. Sem tristeza. Sem coação. Com alegria. Não há percentual prescrito. Há atitude prescrita. Deus se importa mais com o coração que dá do que com o valor que entra na caixa.
O dízimo no Antigo Testamento: o que era de verdade
Antes de discutir se cristão tem que dar, é preciso entender o que era o dízimo no Antigo Testamento. E aí tem surpresa pra muita gente. Existiam três dízimos diferentes em Israel. Primeiro: dízimo dos levitas, anual, dez por cento da produção, que sustentava os sacerdotes (Números 18). Segundo: dízimo das festas, anual, comido pela própria família diante do Senhor (Deuteronômio 14.22 a 27). Terceiro: dízimo dos pobres, a cada três anos, distribuído a viúvas, órfãos e estrangeiros (Deuteronômio 14.28 e 29). Somando, o israelita comum entregava em torno de vinte e três por cento ao ano, e não dez. E dízimo era sempre sobre produção agrícola e pecuária, não sobre dinheiro. Quem cita Malaquias 3 hoje pra cobrar dez por cento de salário em dinheiro está adaptando o texto livremente.
Malaquias 3.10 (NVT)
Tragam todo o dízimo aos depósitos do templo, para que haja alimento suficiente em minha casa. Se vocês fizerem isso, declara o Senhor dos Exércitos, eu lhes provarei que abrirei as janelas dos céus, derramarei sobre vocês uma bênção tão grande, que não haverá lugar suficiente para guardá-la.
Texto dirigido a Israel pós-exílio, sob a Lei. Promessa ligada à terra prometida, a colheita real, a tribo específica. Aplicar diretamente ao cristão de hoje é salto exegético grande. O princípio de generosidade permanece. A obrigação legal específica não.
O Novo Testamento sobre contribuição cristã
Cristo cita o dízimo apenas duas vezes, em Mateus 23.23 e Lucas 11.42. Em ambos os textos, ele repreende fariseus por dizimar erva sem praticar justiça e amor. E diz uma coisa importante: era preciso fazer estas coisas, sem deixar de fazer aquelas. Está no contexto judaico pré-cruz. Não há reaplicação direta pós-cruz. Os apóstolos, ao escrever sobre contribuição cristã, nunca usam a palavra dízimo. Usam termos como dar, contribuir, partilhar, oferta. E nunca prescrevem percentual fixo. O foco é o coração, a regularidade, e a generosidade. 1 Coríntios 16.2 dá uma regra prática: no primeiro dia da semana, cada um separe alguma quantia, conforme tiver prosperado. Regularidade semanal, valor variável, proporcional à prosperidade. Princípios neotestamentários, não percentual fixo.
1 Coríntios 16.2 (NVT)
No primeiro dia da semana, todos vocês devem separar alguma quantia, conforme tiverem prosperado, e guardar essa contribuição em segurança. Não esperem até a minha chegada para fazer essa coleta.
Regularidade semanal. Cada um dá. Conforme tem prosperado, isto é, proporcional à condição. Em comunidade. Sem percentual mandatório. Princípios neotestamentários da contribuição.
Por que a generosidade cristã pode ir além de 10 por cento
Aqui é onde a posição reformada surpreende muita gente. Se o dízimo não obriga o cristão como lei, isso significa que cristão pode dar menos? Pelo contrário. Pode e deve, em geral, dar mais. Por quê? Porque no Antigo Testamento, dez por cento era obrigação legal mínima. No Novo Testamento, a graça transforma a relação com o dinheiro. O cristão é liberto da obrigação legalista, pra ser conquistado pela alegria de dar. Se o israelita sob a Lei dava em torno de vinte e três por cento, faria pouco sentido o cristão sob a graça dar menos. Por isso, a maioria dos teólogos reformados recomenda começar com pelo menos dez por cento, como ponto de partida saudável, e crescer daí, conforme a renda cresce e a fé amadurece. Cristo elogiou a viúva pobre que deu dois leptos, mais do que muitos ricos juntos, porque deu tudo o que tinha (Marcos 12.41 a 44). O Novo Testamento mede contribuição pela proporção do sacrifício, não pelo valor absoluto.
2 Coríntios 8.2 e 3 (NVT)
Eles foram severamente provados em meio à grande tribulação que enfrentaram, mas a alegria deles e a extrema pobreza transbordaram em rica generosidade. Posso lhes garantir que deram não somente o que podiam, mas também muito mais.
Igrejas da Macedônia, pobres, tribuladas, deram além do que podiam. Esse é o tom do Novo Testamento. Não regulamento. Generosidade transformadora.
Mordomia cristã: o dinheiro como teste do coração
Cristo falou mais sobre dinheiro do que sobre céu e inferno juntos. Por quê? Porque o dinheiro é o termômetro do coração. Onde está seu tesouro, ali também estará seu coração (Mateus 6.21). Mordomia cristã do dinheiro tem três pilares. Primeiro: tudo é de Deus. Você é administrador, não dono. Salmo 24.1 diz que do Senhor é a terra e tudo o que nela existe. Você gerencia, não possui em última instância. Segundo: dar com prioridade. Antes de gastar, antes de investir, antes de poupar, separa pra obra do Senhor. Cristão maduro não dá o que sobra. Dá o que vem antes. Terceiro: viver simples pra dar mais. Quanto mais o padrão de vida sobe, menos resta pra dar. Cristão maduro, com renda crescendo, mantém o padrão e cresce a generosidade. Esse é o ponto de inflexão da fé.
Mateus 6.19 a 21 (NVT)
Não acumulem para si tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e ladrões arrombam e roubam. Acumulem para si tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não corroem, nem ladrões arrombam e roubam. Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração.
Cristo dá conselho de investimento. Investe no banco celeste. Vida cristã séria entende que dinheiro dado no Senhor não se perde. Multiplica-se em valor eterno.
Como dar com alegria
- Três aplicações. Primeira: define um percentual fixo pra dar à sua igreja local. Sugiro começar com pelo menos dez por cento da renda bruta, e crescer daí. Não pra cumprir lei. Pra construir hábito.
- Segunda: planeja generosidade. Tira do automático mental, e põe na planilha. Quanto pra igreja, quanto pra missões, quanto pra pobres, quanto pra emergências. Generosidade planejada sustenta. Generosidade emocional fracassa.
- Terceira: revisa seu padrão de vida. Se sua renda subiu nos últimos três anos, e seu dar não subiu junto, tem algo errado. Cristão maduro cresce em generosidade na proporção em que Deus cresce em sua provisão.
Perguntas frequentes
O cristão é obrigado a dar o dízimo?
O Novo Testamento não impõe a lei do dízimo ao cristão como regra mosaica. Em vez disso, ensina a generosidade alegre e voluntária, como Paulo escreve em 2 Coríntios 9.7. O crente dá segundo decidiu no coração, não por medo nem por obrigação legal.
Malaquias 3 se aplica ao cristão hoje?
Malaquias 3 foi dirigido a Israel sob a antiga aliança, dentro do sistema do templo. Usar esse texto para ameaçar cristãos com maldição é tirá-lo do contexto. O princípio que permanece é a fidelidade a Deus, agora expressa pela graça, não pela lei.
Quanto o cristão deve contribuir?
A Bíblia não fixa um percentual obrigatório, mas chama o crente à generosidade intencional e planejada. Muitos começam em torno de dez por cento e crescem a partir daí, sempre por amor e gratidão, contribuindo com alegria para a obra do Senhor.