eclesiologia
O Dízimo é Obrigatório no Novo Testamento?
O dízimo é obrigatório no Novo Testamento? O que a Bíblia ensina sobre contribuição cristã? Nesse vídeo, o pastor Luiz Silva apresenta os três dízimos do Antigo Testamento (que somavam 23 por cento), o ensino neo...
Pergunta polêmica. Se cristão tem que pagar dízimo. Algumas igrejas pregam dízimo como lei eterna, com maldição pra quem não dá. Outras dizem que dízimo é coisa do Antigo Testamento, abolido na Nova Aliança. Hoje a gente vai abrir o que a Bíblia realmente ensina sobre dízimo, ofertas e mordomia cristã. Sem manipulação. Com texto.
Eu vou te mostrar o que era o dízimo no Antigo Testamento, o que o Novo Testamento ensina sobre contribuição cristã, por que a lei do dízimo não obriga o cristão diretamente, e por que a generosidade neotestamentária pode ir muito além de dez por cento. Até o fim, o leitor ter clareza sobre o que dar, com que atitude, e como exercer mordomia bíblica do dinheiro.
O contexto bíblico
Tem dois erros graves circulando hoje. Primeiro: pregadores que ameaçam quem não dá dízimo, citando Malaquias 3, fora de contexto, fazendo membros viverem com medo. Segundo: gente que abandona qualquer disciplina financeira em nome da liberdade, e vive avaro, sem contribuir com a obra do Senhor. A resposta cristã madura está no meio. Não dízimo como lei. Mas generosidade alegre, intencional, planejada, normalmente começando em torno de dez por cento e crescendo daí. Não menos. Nunca por medo. Sempre por amor. Vamos abrir os textos.
2 Coríntios 9.6 a 8 (NVT)
Lembrem-se: aquele que planta pouco colhe pouco, e aquele que planta muito colhe muito. Cada um deve dar conforme tiver decidido em seu coração, sem tristeza, sem coação, pois Deus ama quem dá com alegria. E Deus pode dar a vocês todas as suas bênçãos em abundância, para que sempre tenham tudo de que precisarem e ainda possam fazer o bem em abundância.
Aqui está a regra neotestamentária da contribuição cristã. Cada um decide no coração. Sem tristeza. Sem coação. Com alegria. Não há percentual prescrito. Há atitude prescrita. Deus se importa mais com o coração que dá do que com o valor que entra na caixa.
O dízimo no Antigo Testamento: o que era de verdade
Antes de discutir se cristão tem que dar, é preciso entender o que era o dízimo no Antigo Testamento. E aí tem surpresa pra muita gente. Existiam três dízimos diferentes em Israel. Primeiro: dízimo dos levitas, anual, dez por cento da produção, que sustentava os sacerdotes (Números 18). Segundo: dízimo das festas, anual, comido pela própria família diante do Senhor (Deuteronômio 14.22 a 27). Terceiro: dízimo dos pobres, a cada três anos, distribuído a viúvas, órfãos e estrangeiros (Deuteronômio 14.28 e 29). Somando, o israelita comum entregava em torno de vinte e três por cento ao ano, e não dez. E dízimo era sempre sobre produção agrícola e pecuária, não sobre dinheiro. Quem cita Malaquias 3 hoje pra cobrar dez por cento de salário em dinheiro está adaptando o texto livremente.
Malaquias 3.10 (NVT)
Tragam todo o dízimo aos depósitos do templo, para que haja alimento suficiente em minha casa. Se vocês fizerem isso, declara o Senhor dos Exércitos, eu lhes provarei que abrirei as janelas dos céus, derramarei sobre vocês uma bênção tão grande, que não haverá lugar suficiente para guardá-la.
Texto dirigido a Israel pós-exílio, sob a Lei. Promessa ligada à terra prometida, a colheita real, a tribo específica. Aplicar diretamente ao cristão de hoje é salto exegético grande. O princípio de generosidade permanece. A obrigação legal específica não.
O Novo Testamento sobre contribuição cristã
Cristo cita o dízimo apenas duas vezes, em Mateus 23.23 e Lucas 11.42. Em ambos os textos, ele repreende fariseus por dizimar erva sem praticar justiça e amor. E diz uma coisa importante: era preciso fazer estas coisas, sem deixar de fazer aquelas. Está no contexto judaico pré-cruz. Não há reaplicação direta pós-cruz. Os apóstolos, ao escrever sobre contribuição cristã, nunca usam a palavra dízimo. Usam termos como dar, contribuir, partilhar, oferta. E nunca prescrevem percentual fixo. O foco é o coração, a regularidade, e a generosidade. 1 Coríntios 16.2 dá uma regra prática: no primeiro dia da semana, cada um separe alguma quantia, conforme tiver prosperado. Regularidade semanal, valor variável, proporcional à prosperidade. Princípios neotestamentários, não percentual fixo.
1 Coríntios 16.2 (NVT)
No primeiro dia da semana, todos vocês devem separar alguma quantia, conforme tiverem prosperado, e guardar essa contribuição em segurança. Não esperem até a minha chegada para fazer essa coleta.
Regularidade semanal. Cada um dá. Conforme tem prosperado, isto é, proporcional à condição. Em comunidade. Sem percentual mandatório. Princípios neotestamentários da contribuição.
Por que a generosidade cristã pode ir além de 10 por cento
Aqui é onde a posição reformada surpreende muita gente. Se o dízimo não obriga o cristão como lei, isso significa que cristão pode dar menos? Pelo contrário. Pode e deve, em geral, dar mais. Por quê? Porque no Antigo Testamento, dez por cento era obrigação legal mínima. No Novo Testamento, a graça transforma a relação com o dinheiro. O cristão é liberto da obrigação legalista, pra ser conquistado pela alegria de dar. Se o israelita sob a Lei dava em torno de vinte e três por cento, faria pouco sentido o cristão sob a graça dar menos. Por isso, a maioria dos teólogos reformados recomenda começar com pelo menos dez por cento, como ponto de partida saudável, e crescer daí, conforme a renda cresce e a fé amadurece. Cristo elogiou a viúva pobre que deu dois leptos, mais do que muitos ricos juntos, porque deu tudo o que tinha (Marcos 12.41 a 44). O Novo Testamento mede contribuição pela proporção do sacrifício, não pelo valor absoluto.
2 Coríntios 8.2 e 3 (NVT)
Eles foram severamente provados em meio à grande tribulação que enfrentaram, mas a alegria deles e a extrema pobreza transbordaram em rica generosidade. Posso lhes garantir que deram não somente o que podiam, mas também muito mais.
Igrejas da Macedônia, pobres, tribuladas, deram além do que podiam. Esse é o tom do Novo Testamento. Não regulamento. Generosidade transformadora.
Mordomia cristã: o dinheiro como teste do coração
Cristo falou mais sobre dinheiro do que sobre céu e inferno juntos. Por quê? Porque o dinheiro é o termômetro do coração. Onde está seu tesouro, ali também estará seu coração (Mateus 6.21). Mordomia cristã do dinheiro tem três pilares. Primeiro: tudo é de Deus. Você é administrador, não dono. Salmo 24.1 diz que do Senhor é a terra e tudo o que nela existe. Você gerencia, não possui em última instância. Segundo: dar com prioridade. Antes de gastar, antes de investir, antes de poupar, separa pra obra do Senhor. Cristão maduro não dá o que sobra. Dá o que vem antes. Terceiro: viver simples pra dar mais. Quanto mais o padrão de vida sobe, menos resta pra dar. Cristão maduro, com renda crescendo, mantém o padrão e cresce a generosidade. Esse é o ponto de inflexão da fé.
Mateus 6.19 a 21 (NVT)
Não acumulem para si tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e ladrões arrombam e roubam. Acumulem para si tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não corroem, nem ladrões arrombam e roubam. Pois onde estiver o seu tesouro, ali também estará o seu coração.
Cristo dá conselho de investimento. Investe no banco celeste. Vida cristã séria entende que dinheiro dado no Senhor não se perde. Multiplica-se em valor eterno.
Como aplicar isso na sua vida
- Três aplicações. Primeira: define um percentual fixo pra dar à sua igreja local. Sugiro começar com pelo menos dez por cento da renda bruta, e crescer daí. Não pra cumprir lei. Pra construir hábito.
- Segunda: planeja generosidade. Tira do automático mental, e põe na planilha. Quanto pra igreja, quanto pra missões, quanto pra pobres, quanto pra emergências. Generosidade planejada sustenta. Generosidade emocional fracassa.
- Terceira: revisa seu padrão de vida. Se sua renda subiu nos últimos três anos, e seu dar não subiu junto, tem algo errado. Cristão maduro cresce em generosidade na proporção em que Deus cresce em sua provisão.
Conclusão
As Escrituras tratam essa questão com profundidade e clareza. O propósito deste estudo é levar você de volta ao texto bíblico para que sua convicção repouse na Palavra de Deus, não em opiniões humanas. Que o Senhor use estas linhas para formar em você um pensamento mais cristão, mais bíblico e mais maduro.