Resenha do Teólogo

biblia

A parábola do credor incompassivo: o cristão que recebeu perdão e não perdoa

Jesus contou uma parábola que descreve o cristão moderno mais do que ele gostaria de admitir. A pergunta não é se você foi perdoado, é o que você fez com esse perdão.

Por Luiz Carlos da Silva Junior · 26 de abril de 2026

Capa: A parábola do credor incompassivo: o cristão que recebeu perdão e não perdoa

Mateus 18 traz uma das parábolas mais perturbadoras de Jesus. Pedro acabou de perguntar quantas vezes deveria perdoar um irmão. Sete vezes? Já estaria sendo generoso. Jesus respondeu setenta vezes sete. E para que ninguém deixasse a frase como teoria, ele contou uma história.

Um servo devia dez mil talentos ao seu senhor. O valor é absurdo. Um talento equivalia a vinte anos de trabalho de um operário. Dez mil talentos seriam duzentos mil anos de salário. Uma dívida humanamente impagável. O senhor mandou vender o servo, sua mulher, seus filhos. O homem caiu em terra, suplicou, e o senhor teve compaixão e perdoou tudo.

Sai dali esse servo, encontra um colega que devia a ele cem denários, o equivalente a três meses de salário. E o que ele fez? Pegou pelo pescoço, sufocou e mandou para a prisão. O contraste é tão escandaloso que Jesus não precisou explicar nada. Quem ouvia, entendia.

A primeira pergunta: quem é você nessa história

A maioria das pessoas, ao ouvir essa parábola, se identifica com a vítima do credor incompassivo. Pensa nos colegas de trabalho ingratos, nos parentes que ofenderam, nos cônjuges que magoaram. E vai embora pensando no quanto está sendo prejudicada por gente sem misericórdia.

Mas Jesus não contou essa parábola para vítimas. Ele contou para credores. A pergunta que a parábola faz não é "quem te deve?". A pergunta é "quem você está sufocando?". Você é o credor da história. E a comparação entre as duas dívidas, dez mil talentos contra cem denários, foi feita para escancarar a desproporção entre o que você foi perdoado e o que você se recusa a perdoar.

Reconhecer o tamanho da própria dívida

O servo só não perdoou porque ele esqueceu o que foi perdoado para ele. Quem se lembra que foi devedor de dez mil talentos não consegue ficar irritado com cem denários alheios. A capacidade de perdoar nasce da consciência de ter sido perdoado.

A maioria dos cristãos não consegue perdoar porque não conseguiu, ainda, dimensionar o tamanho do próprio pecado. Ainda acha que o pecado dele é gerenciável. Ainda acha que mereceu uma parte da graça. Ainda acha que era um pouquinho melhor do que os outros.

Mas o evangelho não é uma redução de dívida. É um cancelamento total. Você não foi salvo porque sua dívida era pequena. Você foi salvo porque o sangue de Cristo cobriu uma dívida que nenhum esforço seu jamais cobriria. A misericórdia recebida tem que se converter em misericórdia compartilhada, ou ela não foi entendida.

Receber e repetir

A parábola do credor incompassivo segue uma lógica de três tempos. Reconhecer. Receber. Repetir.

Reconhecer é admitir o tamanho da dívida. É parar de relativizar o pecado. É olhar para a cruz e entender o que custou. Sem reconhecimento, não há recebimento. Quem acha que não devia muito não recebe muito. Quem foi muito perdoado, ama muito (Lucas 7:47).

Receber é estender a mão. Não negociar. Não tentar pagar uma parte. Aceitar que a dívida foi paga por outro. O servo da parábola recebeu o perdão de dez mil talentos sem ter como pagar. Você recebeu a salvação eterna sem ter como pagar. Pare de tentar quitar uma dívida já liquidada.

Repetir é o teste. Quem reconheceu e recebeu, repete. Estende para o outro o mesmo perdão que recebeu. Não porque o outro merece, mas porque você não merecia e foi perdoado mesmo assim. Quando você se recusa a repetir, você prova que não recebeu. E quem não recebeu, nunca foi cristão.

A advertência final

A parábola termina com uma cena dura. O senhor chama o credor incompassivo de servo malvado. Manda entregá-lo aos atormentadores até pagar tudo o que devia. E Jesus encerra: "Assim vos fará também meu Pai celestial, se do íntimo não perdoardes, cada um a seu irmão".

Essa frase deveria fazer dormir mal qualquer cristão que cultiva mágoa. O perdão não é opcional para o cristão. É consequência. Quem foi perdoado por Deus perdoa o irmão. Quem se recusa a perdoar o irmão prova que ainda não foi alcançado pelo perdão de Deus. Não porque o perdão divino seja revogável por mau comportamento, mas porque a recusa em perdoar é a evidência de que o coração ainda não foi quebrantado pela graça.

O que perdoar não significa

Perdoar não é dizer que o que aconteceu não foi grave. Não é fingir que não doeu. Não é restaurar imediatamente a mesma proximidade. Não é abrir mão de processos legais quando há crime envolvido.

Perdoar é abrir mão do direito de cobrar. É devolver o caso para Deus. É deixar de ser o juiz do outro. É retirar o fardo do peito. Você pode perdoar e ainda assim manter distância. Pode perdoar e ainda assim denunciar. Mas você não pode dizer que perdoou enquanto sufoca o irmão pelo pescoço cobrando o que ele te deve.

A liberdade do perdão

Pessoas que carregam mágoa pensam que estão prejudicando o ofensor. Estão se prejudicando. A mágoa é veneno tomado por você esperando que o outro morra. Quem não perdoa vive preso a quem ofendeu. Quem perdoa fica livre.

O credor incompassivo da parábola foi entregue aos atormentadores. Jesus está descrevendo uma realidade espiritual e psicológica. Quem retém perdão é atormentado por dentro. Por insônia. Por amargura. Por raiva que sobe na garganta sempre que o nome da pessoa aparece.

O perdão te liberta. Não porque o ofensor merecia. Mas porque você não foi feito para carregar a função de juiz que pertence a Deus.

A pergunta que sobra

Existe um nome no seu coração que você não quer perdoar. Existe uma cena que você revisita há anos. Existe uma dívida pendente que você guarda como troféu.

Vai até a cruz. Olha de novo o tamanho da sua dívida. Olha quanto Cristo pagou para que você fosse perdoado. E pergunta para si mesmo: depois de tudo o que recebi, é justo que eu retenha?

Não é. E você sabe que não é.

Perguntas frequentes

Qual o significado da parábola do credor incompassivo?

Em Mateus 18, um servo é perdoado de uma dívida impagável, mas se recusa a perdoar uma dívida pequena de um colega. Jesus ensina que quem foi perdoado por Deus deve perdoar o próximo, sob pena de juízo.

Quanto valiam os dez mil talentos da parábola?

Um talento equivalia a cerca de vinte anos de trabalho de um operário, então dez mil talentos somavam duzentos mil anos de salário. O valor absurdo representa a dívida impagável do pecado que só Deus pode perdoar.

O que a parábola ensina sobre perdoar os outros?

Ensina que o perdão recebido de Deus deve transbordar para quem nos deve. Pedro perguntou quantas vezes perdoar, e Jesus respondeu setenta vezes sete, mostrando que o cristão perdoado vive de misericórdia, não de cobrança.

#parabolas #perdao #misericordia #credor incompassivo